quarta-feira, 10 de março de 2021

O Aspecto Crítico da Resenha

     Série de aulas do Currículo Mínimo da SEEDUC - RJ                                       

  AULA 3 - O ASPECTO CRÍTICO DA RESENHA

                   Olá! Tudo bem com vocês?

Dando continuidade ao nosso estudo sobre a arte de resumir textos, vamos iniciar essa aula com a leitura de algumas resenhas. Provavelmente, você já leu ou assistiu à obra “Extraordinário” ou, pelo menos, ouviu falar. Leia abaixo a resenha do livro e, em seguida, a resenha do filme baseado nessa mesma história. Observe o foco dado por cada autor em suas resenhas e o envolvimento emocional de cada um com a história analisada.

O livro conta a história de August, um menino de 10 anos que nasceu com uma síndrome genética e por consequência possui uma severa deformidade facial. Sem nunca ter frequentado uma escola, devido às diversas cirurgias que fez no rosto, sua mãe lhe ensinava que podia em casa, até que ela e seu pai decidem que é hora de mudar.      

   Após muita resistência, e sabendo do desafio que iria enfrentar, August começa a cursar o 5º ano do ensino fundamental na escola Beecher Prep. Lá, ele terá que enfrentar piadas e perguntas cruéis, olhares curiosos, e provar para todos que, apesar da aparência incomum, é um garoto igual a todos os outros.

   Sendo o primeiro livro lançado da escritora R.J. Palácio, Extraordinário é narrado  em primeira pessoa, e possui uma linguagem simples que reflete exatamente a idade do  personagem. Possuindo uma relação admirável com os pais, a irmã e os amigos Summer e Jack Will, August é um garoto consciente, compreensível, e com o decorrer do livro só fica cada vez mais maduro, mais apaixonado por ele.

   Extraordinário nos faz repensar nossos conceitos e é um enorme pedido por  mais gentileza e amor ao próximo.             

                                 Extraordinário - Autora: R. J. Palacio Editora: Intrínseca

    Eu não sei fazer resenha técnica sobre filme. Tão pouco sobre livros. Falo o que sinto e ponto final. Isso pode agradar, mas tenho o palpite que quando se trata de um lançamento, as pessoas esperam críticas profissionais sobre tal obra. Me sinto meio que deslocada nesse sentido, mas hoje estou me perguntando: "será que os críticos se emocionaram ao assistir a esse filme? Se sim, como deixaram suas emoções de lado para avaliarem a obra?"

      O filme Extraordinário foi baseado no livro homônimo de R. J. Palácio. Li o livro em 2013 ou 2014, não lembro ao certo. Foi uma leitura transformadora. A história fictícia foi descrita de uma maneira tão perfeita, tão real, que fiquei tocada. O livro conseguiu me tocar de alguma forma, de um modo muito positivo. Assim sendo, entrou para a lista dos favoritos, tornando- se uma leitura inesquecível. Desde o dia que li, nunca consegui me esquecer do núcleo dos personagens, dos preceitos do Senhor Browne. Terminei a leitura chorando, não de tristeza; de emoção em me deparar com um enredo tão profundo e inspirador.Domingo, ao ser convidada para assistir ao filme no cinema, minha questão era: será que conseguiram captar a essência inspiradora do livro?

      August Pullman (Jacob Tremblay) é um garoto de dez anos que, até então, nunca havia frequentado uma escola. Sua educação sempre foi por conta de sua mãe, Isabel Pullman (Julia Roberts). Isso se deve ao fato de o garoto possuir uma doença genética rara, que lhe trouxe deformidades faciais intensas.

     Agora, ele precisaria começar a estudar numa escola comum, como todos os garotos normais. Mas será que conseguiria lidar com os olhares das outras crianças? Talvez estejam se perguntando "por que me interessaria por um filme que traz as dificuldades de um garoto diferente em seu ano escolar?". Não te julgo. Na verdade, se não fosse pela capa do livro, eu jamais teria me interessado. Acontece que Extraordinário  é muito mais que isso. E não estou falando apenas do livro, me refiro ao filme também.

    O filme conseguiu captar totalmente o enredo do livro, sendo um verdadeiro presente para os leitores, e talvez um gancho para que outras pessoas leiam a história também.

     Auggie não é um garoto comum e pelo fato de ser diferente, precisou aceitar que as pessoas o olham de forma diferente. Ele consegue perceber os olhares. Ele identifica-os. E ao invés de se revoltar e se isolar, como seria comum de acontecer, ele enfrenta e tenta mostrar o seu interior. Ahhh e o interior de Auggie Pullman é a coisa mais bela que a ficção inventou.

    Toda essa construção de Auggie está completamente relacionada à sua estrutura familiar. Ele tem pais maravilhosos, porém imperfeitos; que erram; que por vezes protegem demais. Quando li o livro, os pais de Auggie foram justamente os que mais me cativaram; e estava ansiosa por saber se Julia Roberts e Owen Wilson fariam jus à minha imaginação. E a resposta? Mil vezes, sim. Estou ainda mais apaixonada por esses personagens.

    Ainda falando do núcleo adulto, o Senhor Buzanfa (Mandy Patinkin), diretor da escola de Auggie, me encantou mais no filme que no livro. Casos raros!

    As crianças não fizeram por menos. Jacob Tremblay parece ter saído daslinhas direto para as telas, junto com a doçura de Summer, interpretada por Millie Davis, bem como a crueldade em desenvolvimento de Julian, tão bem interpretado por Bryce Gheisar. Via Pullman (Izabela Vidovic), irmã de Auggie, também protagoniza cenas que emocionam. Irmãos mais velhos como um todo irão se identificar em alguns momentos.

    No livro, lembro que ficava ansiosa pelas aparições e os preceitos do Sr. Browne (Daveed Digs). Não acho que ele teve grande destaque no filme, mas isso não é um ponto negativo.

    Assim como o livro, o filme inspira e toca. O enredo mexe de uma forma surreal dentro da gente; é uma daquelas obras que faz com que você sinta vontade em ser melhor por dentro.

    Nada que você leia sobre ambos, filme e livro, vai condizer com o que realmente são. Termino minha resenha dizendo que todos deveriam conhecer a extraordinária história de Auggie Pullman. Meus olhos ficaram marejados o tempo todo, ora pela emoção da história, ora pela felicidade em ver meu livro favorito tão perfeitamente adaptado. É um filme EXTRAORDINÁRIO. Sem mais! 

Resenha Do Filme: Extraordinário - A Culpa é dos Leitores (aculpaedosleitores.com.br)   

E aí? O que acharam? Quem ainda não leu o livro ou assistiu ao filme Extraordinário, ao ler as resenhas, sentiu curiosidade de conhecer a história? Então, aguçar a curiosidade do leitor é, justamente, a finalidade desse gênero textual, conforme veremos a partir de agora. Como vimos nas aulas anteriores, a resenha caracteriza-se por ser, no geral, um resumo crítico. Nessa produção textual, o autor faz uma descrição e uma breve apreciação a respeito de acontecimentos culturais ou obras (sejam elas cinematográficas,  musicais, teatrais e literárias), a fim de divulgar um objeto de consumo cultural, de maneira resumida, convidando o leitor ou espectador a conhecer a obra na íntegra. Em geral, a resenha é veiculada por jornais e revistas. Geralmente, o texto resenha deve conter uma análise e um julgamento, seja de verdade ou de valor. Por tratar-se de um resumo crítico, este tipo de texto exige que resenhista seja alguém com conhecimentos na área, pois só assim poderá avaliar e julgar a obra criticamente. Uma resenha pode ser descrita ou crítica (opinativa):


Resenha descritiva - Neste tipo de resenha, a apreciação, ou julgamento é feito em cima das ideias do autor. Nesse caso, trata-se de um julgamento de verdade. A resenha descritiva pode ser encontrada nos resumos de livros técnicos, também denominadas resenhas técnicas ou científicas.

Resenha crítica ou opinativa - Na resenha crítica ou opinativa, o conteúdo é apresentado mais detalhadamente do que na resenha descritiva. Nesse tipo de texto, os critérios de julgamento são de valor, de beleza da forma, e do estilo do objeto cultural. O ato de explorar mais profundamente os detalhes ocorre devido à necessidade de que o autor fundamente as suas críticas, sejam elas positivas ou negativas. Além de resumir o objeto, o autor da resenha crítica faz uma avaliação sobre ele. Assim sendo, trata-se de um texto de informação e de opinião.

                      Trecho de resenha descritiva de A Vida é Bela, de Roberto Benigni

   A Vida é Bela é uma comédia trágica cuja história tem início na década de 30, na Itália. Lá, Guido, um garçom judeu divertido, se apaixona por uma jovem rica, com quem casa e tem um filho. Por ocasião da Segunda Guerra Mundial, levados para um campo de concentração, Guido tenta proteger seu filho do horror que vivenciam fazendo com que ele acredite que estão num jogo. É uma história comovente, que ajuda a entender um pouco sobre alguns aspectos da Guerra.

         Trecho de resenha crítica de Pantera Negra, de Ryan Coogle

    Pantera Negra passa-se em Wakanda, o fictício país africano isolado do resto do mundo e que é uma potência tecnológica.

 Com o super-herói negro T’Challa, não é por acaso que a trilha sonora dessa produção cinematográfica, que une ancestralidade com modernidade, tem a força dos tambores africanos. É um sucesso de bilheteria muito interessante para assistir e talvez ainda mais para discutir, que ele levanta questões sobre preconceito racial, relação entre países, e até mesmo sobre os refugiados.

 TESTE SEU CONHECIMENTO

 Os textos abaixo foram escritos por dois estudantes de escola pública a respeito dos filmes “Crepúsculo” e “Mercenários 2”. Leiam com atenção e verifiquem quais foram os principais aspectos destacados por eles em suas análises. São análises opinativas que têm relação com o gosto pessoal de cada autor.

                            I - Texto

 

                              Imagem:https://http2.mlstatic.com/pster-cartaz-crepusculo-93x63cm-D_NQ_NP_691031- MLB27236538237_042018- F.jpg)

                                                                     SAGA CREPÚSCULO: TUDO PARA SER UM SUCESSO

   A história de Crepúsculo é sobre Bella Swan, uma adolescente que nunca se deu bem com as outras garotas e, depois que a mãe se casa novamente, se muda da ensolarada Phoenix para a chuvosa cidade de Forks para viver com o pai. Lá, ela começa a viver um romance com o misterioso Edward Cullen, que faz parte de uma família de vampiros. Assim como os outros de sua espécie, Edward é extremamente forte  e rápido, e também não envelhece. Porém, sua família se diferencia dos outros vampiros por não beberem sangue humano. Apesar do que sentem um pelo outro, Bella e Edward tentam se afastar, para que ele não ceda ao desejo de beber o sangue dela. Mas as coisas começam a piorar para os dois quando um grupo de vampiros inimigos da família de Edward chegam à cidade procurando por Bella.

    Crepúsculo é o mais recente fenômeno entre a garotada. Tendo custado US$ 37 milhões, rendeu mais de US$ 145 milhões ao redor do planeta em duas semanas nos cinemas. O filme reúne elementos que atraem em cheio os espectadores mais jovens: romance e fantasia, além de toques de suspense. Um romance adolescente complicado por definição - que ganha toques de dramaticidade por conta dele ser um vampiro. Edward é mais ou menos tudo que uma garota sonha (num mundo fantasioso, evidentemente): lindo, protege Bella e ainda tem superpoderes. Deve ser por isso que ele  é capaz de arrancar suspiros não somente da protagonista, mas da plateia feminina também. 

    O conflito é transformado em tensão, sofrimento, dor e tudo isso que o amor provoca, mesmo nos seres humanos normais que não brilham como diamantes sob o sol como os vampiros. As cenas nas quais Edward mostra toda a sua força e velocidade típicas de sua espécie são impressionantes, principalmente quando ele praticamente flutua pelas paisagens geladas das florestas que circundam a cidade de Forks A fotografia gelada, numa ambientação sempre chuvosa, dá o ar sombrio que a história precisa. Mas algo incomoda em Crepúsculo: a trilha sonora. Essa já cansativa mania dos produtores de Hollywood de utilizarem a música exageradamente para sublimar sentimentos e momentos de tensão.

    O final do longa é aberto, evidentemente, pedindo uma continuação e atiçando o espectador para que volte aos cinemas em 2010. Enfim, Crepúsculo é o tipo de filme a ser recomendado aos espectadores adolescentes que embarcam em sua viagem.

(Joana Vieira Silva – ano, 17 anos, MG.)

                              II TEXTO


                                     (Imagem: https://www.google.com/search?tbm=isch&q=Mercen%C3%A1rios+2,+Os

MERCENÁRIOS 2: A VOVOZADA CONTINUA


     A fórmula do primeiro filme era simples: pegar vários astros de ação, muitos estão perto da aposentadoria, e colocá-los todos juntos na tela. Por isso, o que parece mais óbvio é fazer uma continuação aumentando a quantidade de nomes que vemos em diversos filmes de ação. Liderados por Stallone, que ganha destaque no cartaz, temos um sangue novo interpretado por Liam Hemsworth e muito sangue velho aumentando o bando, com Schwarzenegger e Bruce Willis com mais coisas para fazer do que no primeiro. O mais curioso é que a fórmula realmente funciona. Funcionou no primeiro e continua funcionando aqui. Claro que não estou falando que se trata de uma obra-prima do cinema, mas sim que o filme acaba sendo divertido e servindo seus propósitos. Aqui, eles se superam em quase todos os aspectos, e seguem a mesma linha que traçaram no filme anterior. Exceto que agora o vilão é Vilain (Jean-Claude Van Damme), cujo nome é muito similar a "vilão" em inglês. Segundo divulgaram, Stallone não quis dirigir o filme, coisa que fez no primeiro, para se dedicar mais ao roteiro do filme. O que se pode esperar, porém, não é um resultado melhor do que o primeiro. E olhe que o resultado do primeiro já não era nada de excepcional. Os diálogos não fluem necessariamente como deveriam e o humor não funciona. O filme termina com uma desnecessária luta entre Stallone e Van Damme, mas acredito que além de ser uma espécie de regra, deve ser impossível contratar o ator belga e não lhe oferecer uma cena de luta. A luta é anti- climática e talvez não de acordo com a idade dos senhores. É tolice tentar categorizar esse filme em termos de bom ou ruim, então o que resta é analisar como uma nostálgica volta aos filmes de ação, e nesse sentido, ele satisfaz. Recomenda-se o conhecimento desse filme a todos os públicos que apreciam um filme de ação com veterano de guerra, com uma dose de comédia.

                                (Pedro Arthur Cardoso, ano, 16 ano, SP)

 1.   Os dois textos lidos pertencem a qual gênero textual?

   ( ) carta       ( ) receita

 2.   Quais são as características desse gênero textual

(Você pode encontrá-las na teoria apresentada no início das aulas).

 3.   A autora do texto 1 se coloca a favor ou contra ao filme que ela está analisando?

 ( ) contra   ( ) a favor

4.   Cite um ponto positivo que ela nesse filme.

5.   Segundo o texto 1, para que tipo de público é recomendado o filme Crepúsculo?

( ) adolescentes   ( ) criança

 6.     O autor do texto 2 se coloca a favor ou contra ao filme que ele está analisando?

 7.    ( ) a favor              ( ) contra

8.   Cite um ponto negativo que ele nesse filme. 

9.  Segundo o texto 2, para que tipo de público é recomendado o filme “Mercenários2”?

10. Ao ler as resenhas sobre “Extraordinário”, percebe-se que a história nela narrada, aborda, essencialmente, um tema de bastante relevância social, que é...

a)   a importância de sermos pessoas críticas, expondo os pontos positivos e negativos em questões cotidianas.

b)   a necessidade de aproveitar bastante o período da infância, que é um período muito mágico e único em nossa vida.

c)   a questão do bullying, especialmente ocorrida no ambiente escolar.

d)   a percepção da família como um porto seguro em nossas vidas.


                                                                         Bons Estudos!!!

sexta-feira, 5 de março de 2021

Parágrafo Introdutório - Exercícios

 Construindo o Parágrafo Introdutório

            
                    Por Profª Jacs
  Atividades autorreguladas - Aula 02

1) Construa um parágrafo inicial para cada assunto:

a) O namoro na atualidade.

b) Violência urbana.
 
2) Construa um parágrafo de CONTINUAÇÃO para cada parágrafo do exercício.
 
a) O namoro na atualidade. (Continuação)

b) Violência urbana (Continuação)

Bons estudos!

domingo, 28 de fevereiro de 2021

A Crônica


LÍNGUA PORTUGUESA E LITERATURA  

Crônica Literária. 

Você costuma ler esse gênero textual?


Você sabia que a crônica é um texto curto e leve, escrito com o objetivo de divertir o leitor e/ou levá-lo a refletir crítica ou filosoficamente sobre a vida e os comportamentos humanos? É geralmente breve, que apresenta a visão pessoal do cronista sobre um fato colhido no noticiário do jornal ou no cotidiano. Sua linguagem é simples e direta, próxima do leitor.

Na verdade, a crônica é um gênero híbrido, ou seja, uma mistura de texto jornalístico e literário. Ela pode ser escrita tanto para ser publicada num jornal e revista, quanto para ser publicada em um livro (antologia de crônicas).

As crônicas variam muito de assuntos, porém o autor sempre mostra o seu ponto de vista a respeito do cotidiano, ou ainda reflete sobre acontecimentos esportivos, políticos, artísticos etc.

Nesse gênero textual, em termos de linguagem, temos indícios de informalidade na escolha de palavras e expressões e a combinação de elementos literários (linguagem figurada) com elementos da linguagem jornalística (clareza nas informações), além de ser um texto curto e sempre escrito em prosa, caracterizando- se pela fusão de narrativa com a exposição de ideias e opiniões.

O Pré-Modernismo teve importantes cronistas, cujas obras documentavam a modernização do país, bem como a sua diversidade cultural. Lima Barreto foi um desses cronistas que analisou as diversas faces do Brasil de sua época.

Leia a crônica abaixo:

"O  MUAMBEIRO"

Quando saio de casa e vou à esquina da Estrada Real de Santa Cruz, esperar o bonde, vejo bem a miséria que vai por este Rio de Janeiro. Moro há mais de 10 anos naquelas paragens e não sei por que os humildes e os pobres têm-me na conta de pessoa importante, poderosa, capaz de arranjar empregos e solver dificuldades.

Pergunta-me um se deve assentar praça na Brigada, pois há oito meses não trabalha no seu ofício de carpinteiro; pergunta-me outro se deve votar no Sr. Fulano; e, às vezes mesmo, consultam-me sobre casos embaraçosos. Houve um matador de porcos que pediu a minha opinião sobre este caso curioso: se devia aceitar dez mil-réis para matar o cevado do capitão M., o que lhe dava trabalho por três dias, com a salga e o fabrico de linguiças; ou se devia comprar o canastra por cinquenta mil-réis e revendê-lo aos quilos pela redondeza. Eu, que nunca fui versado em coisas de matadouro, olhei os Órgãos ainda fumarentos nestas manhãs de cerração e pensei que o meu destino era ser vigário de uma pequena freguesia.

Ultimamente, na esquina, veio ao meu encontro um homem com quem conversei alguns minutos. Ele me contou a sua desdita com todo o vagar de popular.

Era operário não sei de que ofício; ficara sem emprego, mas, como tinha um pequeno sítio lá para as bandas do Timbó e algumas economias, não se atrapalhou em começo. As economias foram-se, mas ficou-lhe o sítio, com as suas laranjeiras, com as suas tangerineiras, as suas bananeiras, árvore de futuro com a qual o Sr. Cincinato Braga, depois de salvar o café, vai salvar o Brasil. Notem bem: depois.

Este ano foi particularmente abundante em laranjas e o nosso homem teve a feliz ideia de vendê-las. Vendo, porém, que os compradores na porta não lhe davam o preço Devido, tratou de valorizar o produto, mas sem empréstimo a 30%. Comprou um cesto, encheu-o de laranjas e saiu a gritar:

- Vai laranja boa! Uma a vintém!

Foi feliz e pelo caminho apurou uns dois mil-réis. Quando, porém, chegou a Todos os Santos, saiu-lhe ao encontro a lei, na pessoa de um guarda municipal:

- Que dê a licença?

- Que licença?

- Já sei, intimou o guarda. Você é "muambeiro". Vamos para a Agência.

Tomaram-lhe o cesto, as laranjas, o dinheiro e, a muito custo, deixaram-no com a roupa do corpo.

Eis aí como se protege a pomicultura.

Careta, 7-8-1915. Lima Barreto, Marginália. p. 36-37. Disponível em: http://livros.universia.com.br.

VOCABULÁRIO

Estrada Real de Santa Cruz - foi o local de uma estrade de ferro e de uma próspera fazenda fundada pelos padres jesuítas nos arredores da cidade do Rio de Janeiro. Sua sede e núcleo principal correspondem hoje ao Bairro carioca de Santa Cruz.

Órgãos – Parque Nacional da Serra dos Órgãos, em Teresópolis.

Paragens – região das cercanias do lugar onde está.

Canastra – parte posterior do corpo.

Desdita – má sorte. 

Timbó – rio que corta os bairros de Cavalcanti, Tomás Coelho, Engenho da Rainha, Inhaúma e Higienópolis.

Todos os Santos - pequeno bairro da Zona Norte do Rio de Janeiro, sendo cortado pela Estrada de Ferro Central do Brasil.

Pomicultura – cultura de árvores frutíferas.

Agora, você vai analisar a crônica “O muambeiro”, resolvendo os exercícios abaixo.

Como você observou, a crônica é um gênero textual no qual se apresentam fatos do cotidiano. Há a presença de poucos personagens, linguagem geralmente informal, direta, simples e, em alguns casos, poética.

1. Explique por que o texto “O muambeiro” pode ser considerado uma crônica.

Resposta comentada: O texto pode ser considerado uma crônica porque se baseia em um fato do cotidiano, é simples e narrado num curto espaço de tempo e de espaço.

2. O assunto tratado no texto recria a realidade? Porquê?

Resposta comentada: Sim. A crônica gira em torno de uma situação cotidiana que pode acontecer com qualquer leitor. O cronista conta o fato e mostra ao leitor as suas impressões em relação ao mesmo.

3. Muitas crônicas contam uma história, um fato. Isso permite identificar alguns elementos de uma narrativa.  Qual o espaço onde se passa a crônica? E qual é o período?

Resposta comentada: A crônica se passa no bairro onde mora o cronista (“Quando saio de casa e vou à esquina da Estrada Real de Santa Cruz.…”). Nota-se que a ação se passa em poucas horas do dia.

4. A crônica é um gênero textual vinculado a uma experiência do cotidiano. O fato narrado pelo cronista seria real ou fictício? Justifique.

Resposta comentada: A crônica trata de um fato real do cotidiano, tentando destacar alguma situação da condição humana, no caso, a situação em que passou um desempregado.

5. O humor é uma característica bem presente nas crônicas. Isso faz com que as mesmas tratem de temas do cotidiano, com um ponto de vista crítico, mas sem perder a leveza daquilo que é narrado. A crônica em análise apresenta traços do humor? Justifique.

Resposta comentada: Sim. Os fatos narrados pelo cronista levam a um efeito humorístico. Logo no início o autor apresenta esse efeito do humor ao dizer “não sei por que os humildes e os pobres têm-me na conta de pessoa importante, poderosa, capaz de arranjar empregos e solver dificuldades”.

6. A crônica, em geral, termina com uma reflexão expressa pelo cronista. Explique a reflexão do cronista ao dizer “Eis aí como se protege a pomicultura”.

Resposta comentada: Na verdade, o autor ironicamente critica a atitude do guarda municipal em prender um desempregado, que estava tentando sobreviver com o que possuía, não sabendo nem mesmo o que era licença e, ainda, foi chamado de muambeiro.

EXERCÍCIOS PARA AVALIAÇÕES/// ENEM

Observe a crônica abaixo:

A nuvem

Fico admirado como é que você, morando nesta cidade, consegue escrever uma semana inteira sem reclamar, sem protestar, sem espinafrar! E meu amigo falou da água, telefone, Light em geral, carne, batata, transporte, custo de vida, buracos na rua etc. etc. etc. Meu amigo está, como dizem as pessoas exageradas, grávido de razões. Mas que posso fazer? Até que tenho reclamado muito isto e aquilo. Mas se eu for ficar rezingando todo dia, estou roubado: quem é que vai aguentar me ler? Acho que o leitor gosta de ver suas queixas no jornal, mas em termos.

Além disso, a verdade não está apenas nos buracos das ruas e outras mazelas. Não é verdade que as amendoeiras neste inverno deram um show luxuoso de folhas vermelhas voando no ar? E ficaria demasiado feio eu confessar que há uma jovem gostando de mim? Ah, bem sei que esses encantamentos de moça por um senhor maduro duram pouco. São caprichos de certa fase. Mas que importa? Esse carinho me faz bem; eu o recebo terna e gravemente; sem melancolia, porque sem ilusão. Ele se irá como veio, leve nuvem solta na brisa, que se tinge um instante de púrpura sobre as cinzas de meu crepúsculo. E olhem só que tipo de frase estou escrevendo!   

     - Tome tenência, velho Braga. Deixe a nuvem, olhe para o chão - e seus tradicionais buracos.

Fonte: BRAGA, RUBEM. Ai de ti, Copacabana. Rio de Janeiro: Record,1960.

CRÔNICA

Com base no texto acima, responda às seguintes questões.

1. É correto afirmar que, a partir da crítica que o amigo lhe dirige, o narrador cronista:

a) Sente-se obrigado a escrever sobre assuntos exigidos pelo público

b) Reflete sobre a oposição entre literatura e realidade

c) Reflete sobre diversos aspectos da realidade e sua representação na literatura

d) Defende a posição de que a literatura não deve ocupar-se com problemas sociais

e) Sente que deve mudar seus temas, pois sua escrita não está acompanhando os novos tempos

2. Em “E olhem só que tipo de frase estou escrevendo! (...)”, o sinal de pontuação utilizado serviu para indicar:

a) uma admiração

b) uma pausa

c) uma indagação

d) uma continuação

3. De acordo com o texto, qual a explicação que o cronista deu por ter deixado de reclamar?

a) Por ele estar doente

b) Por estar estudando outras coisas

c) Porque se continuasse reclamando ninguém aguentaria ler mais suas crônicas

d) Porque suas crônicas não estavam sendo publicadas

4. No trecho “... eu o recebo terna e gravemente; sem melancolia, porque sem ilusão.”, o termo sublinhado se refere:

a) ao transporte

b) ao telefone

c) ao custo de vida

d) ao carinho

5. Segundo o texto, o que o autor quis dizer quando mencionou o termo “grávido de razões”:

a) Não tinha razão

b) Estava cheio de razões

c) Suas razões não eram boas

d) A razão não era suficiente

Bons estudos!!

Créditos: atividades Autorreguladas - SEEDUC - RJ

terça-feira, 2 de julho de 2013

DICAS DE INTERPRETAÇÃO

DICAS DE INTERPRETAÇÃO      


01. Ler todo o texto, procurando ter uma visão geral do assunto;

02. Se encontrar palavras desconhecidas, não interrompa a leitura, vá até o fim, ininterruptamente;

03. Ler, ler bem, ler profundamente, ou seja, ler o texto pelo menos umas três vezes;

04. Ler com perspicácia, sutileza, malícia nas entrelinhas;

05. Voltar ao texto tantas quantas vezes precisar;

06. Não permitir que prevaleçam suas ideias sobre as do autor;

07. Partir o texto em pedaços (parágrafos, partes) para melhor compreensão;

08. Centralizar cada questão ao pedaço (parágrafo, parte) do texto correspondente;

09. Verificar, com atenção e cuidado, o enunciado de cada questão;

10. Cuidado com os vocábulos: destoa (=diferente de...), não, correta, incorreta, certa, errada, falsa,
verdadeira, exceto, e outras; palavras que aparecem nas perguntas e que, às vezes, dificultam a entender o que se perguntou e o que se pediu;

11. Quando duas alternativas lhe parecem corretas, procurar a mais exata ou a mais completa;

12. Quando o autor apenas sugerir ideia, procurar um fundamento de lógica objetiva;

13. Cuidado com as questões voltadas para dados superficiais;

14. Não se deve procurar a verdade exata dentro daquela resposta, mas a opção que melhor se enquadre no sentido do texto;

15. Às vezes a etimologia ou a semelhança das palavras denuncia a resposta;

16. Procure estabelecer quais foram as opiniões expostas pelo autor, definindo o tema e a mensagem;

17. O autor defende ideias e você deve percebê-las;

18. Os adjuntos adverbiais e os predicativos do sujeito são importantíssimos na interpretação do texto. Ex.: Ele morreu de fome. de fome: adjunto adverbial de causa, determina a causa na realização do fato (= morte de "ele").Ex.: Ele morreu faminto. Faminto: predicativo do sujeito é o estado em que "ele" se encontrava quando morreu;

19. As orações coordenadas não têm oração principal, apenas as ideias estão coordenadas entre si;


20. Os adjetivos ligados a um substantivo vão dar a ele maior clareza de expressão, aumentando-lhe       ou determinando-lhe o significado.

Analise de música - Mulher (Sexo Frágil)

  Mulher (Sexo Frágil) (Erasmo Carlos) Dizem que a mulher é o sexo frágil Mas que mentira absurda! Eu que faço parte da rotina de uma delas...