O TEXTO DE OPINIÃO NO ENSINO FUNDAMENTAL
(Por Vania L.Dutra -UERJ)
Produção de Textos
Os Diferentes Gêneros Textuais
Ao se propor uma atividade de produção textual, é preciso que se dê à
escrita uma finalidade clara e, se possível, que se estimule sua circulação
fora do âmbito aluno (produtor) / professor (receptor). Normalmente, o leitor
das produções dos alunos na escola é somente o professor. A tarefa de escrita é
feita na escola e para a escola, e o aluno se adapta a essa situação, buscando
construir um texto padronizado (“padrão escola”) que atenda à expectativa do
avaliador para obter uma nota. Esse fato faz com que os alunos não arrisquem,
não ousem na construção de seus textos e contribui para que esses textos que se
produzem na escola sejam muito parecidos entre si (reprodução).
É importante, então, que as condições de produção estejam muito claras
para o aluno a cada proposta de trabalho apresentada pelo professor.
Condições de produção de textos na escola
Para escrever seus textos, o aluno precisa saber:· qual a finalidade da escrita (entreter,
sensibilizar os leitores; informar os leitores sobre algum tema; convencer os
leitores de alguma coisa);· qual (is) o(s) provável (eis) receptor (es) para
seu texto (professor e colegas da turma; outros professores e colegas de outras
turmas; comunidade escolar de uma forma geral; família; leitores de um
determinado jornal ou revista aonde o texto venha a ser publicado);· qual o gênero textual em que o texto se
materializará – o que determinará o suporte em que circulará (jornal, revista,
cartaz, folheto, livro etc.), sua forma (superestrutura, silhueta) e sua
estrutura linguística (sequências textuais, variedade linguística, estruturas
gramaticais e seleção vocabular específicas).
Gêneros textuais
Conforme Marcuschi (2002: 22), a expressão gêneros textuais referem
aos textos materializados que encontramos em nossa vida diária e que apresentam características sócio comunicativas definidas por conteúdos, propriedades funcionais, estilo e composição característica. Se os tipos textuais são apenas meia dúzia, os gêneros são inúmeros. Alguns exemplos de gêneros textuais seriam: telefonema, sermão, carta comercial, carta pessoal, romance, bilhete, reportagem jornalística, aula expositiva, reunião de condomínio, notícia jornalística, horóscopo, receita culinária, bula de remédio, lista de compras, cardápio de restaurante, instruções de uso, outdoor, inquérito policial, resenha, edital de concurso, piada, conversação espontânea, conferência, carta eletrônica, bate-papo por computador, aulas virtuais e assim por diante.
Conforme Marcuschi (2002: 22), a expressão gêneros textuais referem
aos textos materializados que encontramos em nossa vida diária e que apresentam características sócio comunicativas definidas por conteúdos, propriedades funcionais, estilo e composição característica. Se os tipos textuais são apenas meia dúzia, os gêneros são inúmeros. Alguns exemplos de gêneros textuais seriam: telefonema, sermão, carta comercial, carta pessoal, romance, bilhete, reportagem jornalística, aula expositiva, reunião de condomínio, notícia jornalística, horóscopo, receita culinária, bula de remédio, lista de compras, cardápio de restaurante, instruções de uso, outdoor, inquérito policial, resenha, edital de concurso, piada, conversação espontânea, conferência, carta eletrônica, bate-papo por computador, aulas virtuais e assim por diante.
Os gêneros textuais são fenômenos históricos profundamente vinculados à
vida cultural e social. São manifestações linguísticas concretas, constituindo
textos empiricamente realizados que cumprem funções diversas em diferentes
situações comunicativas.
É importante ressaltar que, nos diversos gêneros, realizam-se diferentes
modos de organização do discurso (tipos textuais, conforme
Marcuschi). É bastante comum que, no mesmo gênero textual, realizem-se dois ou
mais modos, havendo sempre a predominância de um sobre os demais. Um texto é,
em geral, heterogêneo em relação aos modos de organização do discurso, mas
caracteriza-se como descritivo, narrativo, argumentativo etc. de acordo com a sequência
que nele prevalecer. O modo de organização do discurso é caracterizado por um
conjunto de traços linguísticos que formam uma sequência, não um texto. Assim,
podem fazer parte da constituição de um mesmo texto sequências textuais (modos
de organização do discurso) diferentes, mas relacionadas entre si.
Como já mencionado, os modos de organização do discurso fundam-se em
critérios intratextuais (linguísticos e formais). Os gêneros, por sua vez, em
critérios extratextuais (sócio comunicativos e discursivos).
Os chamados tipos textuais (Charaudeau, 1992) ou domínios discursivos (Marcuschi, 2003) geram inúmeros gêneros textuais: o tipo epistolar, por exemplo, geram cartas, bilhetes, e-mails etc. (gêneros). Considerando-se a especificidade de cada situação comunicativa, entretanto, e com base nos critérios de ação prática, circulação sócio histórica, funcionalidade, conteúdo temático, estilo, um gênero pode apresentar, e geralmente apresenta, subgêneros. No caso da carta (gênero), por exemplo, temos como subgêneros: a carta pessoal, a carta comercial, a carta de recomendação, entre outras.
Os vários gêneros textuais apresentam características formais e linguísticas
muito distintas. Escrever um conto é muito diferente de escrever uma reportagem
ou um texto de opinião, por exemplo.
Cada um dos gêneros tem uma finalidade bastante específica, por isso
apresenta características muito particulares. Assim, é preciso que o professor,
em cada um dos casos, oriente diferentemente o aluno, para que o texto
produzido seja satisfatório.
O Texto de Opinião
É fato que o texto de opinião não é trabalhado com frequência no ensino
fundamental. A produção desse gênero exige que os alunos assumam um
posicionamento e argumentem. Talvez por isso haja uma tendência de se
considerar que, nas séries mais baixas, por serem mais jovens, os alunos não
sejam capazes de produzir esse tipo de texto.
Contudo, nas interações comunicativas, desde que começam a falar, as
crianças argumentam. Buscam convencer seus interlocutores (pais, irmãos,
amiguinhos, professores), tentando alcançar seus objetivos. Isso se dá antes
mesmo de aprenderem a narrar, embora sejam narrativos os textos mais
trabalhados no ensino fundamental.
Aprender a debater oralmente é muito importante para as atividades
desenvolvidas na escola e fora dela. Mas é necessário que os alunos aprendam
também a debater, a opinar por escrito.
Assim como no caso dos outros gêneros textuais, escrever um texto de
opinião, argumentando, de forma clara, lógica e ordenada, é uma habilidade que
se aprende. Cabe, então, à escola orientar seu aluno em relação aos aspectos
específicos desse gênero, auxiliando-o na organização do que, de certa forma,
ele já é capaz de fazer como falante da língua portuguesa.
Para se chegar ao texto de opinião escrito, é necessário que se
construa, antes, o trabalho na oralidade e que se leiam muitos textos de
opinião.
Produção Oral
As crianças e os adolescentes, na escola e fora dela, vivem discutindo
coisas entre si. E, muitas vezes, essas são discussões desordenadas, que nem
sempre têm resultado positivo. É muito importante que os alunos percebam a
necessidade da argumentação para debater ideias com as quais não concordem e
para convencer o outro de sua opinião.
É a partir da intervenção do professor que os alunos aprenderão a
debater assuntos ordenadamente, a respeitar seu interlocutor, a dar sua opinião
e sustentá-la sempre que for necessário. Esse trabalho pode (e deve) ser
desenvolvido desde o início da escolarização.
Análise de Textos Escritos
É necessário que os alunos convivam com o texto de opinião escrito,
analisando seu conteúdo e suas estratégias de estruturação. Um importante corpus
desse gênero para leitura na escola está nos jornais e nas revistas: são
cartas e e-mails de leitores que opinam sobre tema(s) comum (ns),
geralmente problemas ou acontecimentos ocorridos recentemente, que afetam a
vida de seu país, seu estado, sua cidade, seu bairro.
Ler textos de opinião, escritos por diferentes autores, sobre um mesmo
assunto, possibilita ao aluno conhecer diferentes pontos de vista e suas
respectivas fundamentações. É preciso guiar a leitura do aluno para que ele
perceba qual é a questão abordada (fato), a opinião do autor do texto (tese)
e sua justificativa (argumentos), elementos fundamentais na estruturação
desse gênero.
A produção escrita do texto de opinião pode se dar nas séries iniciais,
com o texto coletivo, e nas demais séries, em grupos e individualmente, com um
aprofundamento cada vez maior conforme a série e a maturidade dos alunos.
Objetivo, Conteúdo e Estruturação do Texto de Opinião
Objetivo
Quando escrevemos um texto de opinião, nosso objetivo é o de convencer.
Apresentamos nossa opinião em relação a determinado assunto e desejamos
convencer nosso leitor a assumir o mesmo ponto de vista.
Conteúdo
Para que se possa alcançar com êxito esse objetivo, é preciso que o
aluno conheça muito bem o tema de que irá tratar. O autor do texto precisa ter
dados e informações que justifiquem sua opinião, que possibilitem a ele
construir bons argumentos, a favor ou contra o tema abordado.
É importante, portanto, que se levem para a sala de aula textos sobre o
assunto (informativos, literários, da mídia etc.) e que se promova, então, um
amplo debate. Assim, os alunos podem contribuir com as informações que têm
sobre o tema e podem exercitar a prática da argumentação oral, habilidade muito
exigida hoje na vida em sociedade e na escola, especificamente.
A escrita de um texto de opinião pressupõe, geralmente, as seguintes
etapas de trabalho (não necessariamente nesta ordem):
· tomada de posição em relação ao tema (contra ou a
favor);
· justificativa da posição assumida, com base em
argumentos;
· antecipação de possíveis argumentos contrários ao
seu ponto de vista, contestando-os;
· conclusão do texto, reforçando-se a posição
assumida.
Levantados esses pontos, é preciso, também, que se observem dois
aspectos fundamentais para a construção da coerência do texto:
· organização dos argumentos;
· ligação entre as diferentes partes do texto
(frases, parágrafos; introdução, desenvolvimento e conclusão).
Estrutura linguística
A questão da articulação
Além de todos os aspectos gramaticais relevantes para a escrita de
qualquer gênero textual, no texto de opinião é extremamente importante à
questão da articulação. Por não se caracterizar como uma lista de argumentos,
esse texto pressupõe uma ligação entre suas diferentes partes, encaminhando-o a
uma conclusão.
Eis algumas palavras e expressões que cumprem essa função, contribuindo
para a construção da coerência textual:
Palavras
ou expressões que:
|
Exemplos:
|
anunciam
a posição do autor diante do que está sendo enunciado
|
“na
minha opinião”, “penso que”, “acho que”, “pessoalmente”, “no meu ponto de
vista” , “indubitavelmente”, ”realmente”, “com certeza”, “parece-me que”,
“provavelmente”, “infelizmente”;
|
introduzem
argumentos, estabelecendo relações lógicas entre as partes dos enunciados
(orações, períodos)
|
“porque”,
“pois”, “por isso”, “embora”, “apesar de”, “para”, “a fim de”, “logo”,
“então”;
|
apresentam
o fechamento, a conclusão do texto
|
“consequentemente”,
“por conseguinte”, “assim”, “então”, “desse modo”;
|
articulam
o texto como um todo (grupos de períodos, parágrafos, partes maiores do
texto)
|
“em
primeiro lugar (...) em segundo lugar (...) finalmente”,
“por um
lado (...) por outro lado”
|
A questão da enunciação
Um outro aspecto linguístico de muita relevância na estruturação do
texto de opinião é a enunciação (quem fala no texto, como se apresenta).
No primeiro segmento do ensino fundamental e nas séries iniciais do
segundo segmento, é mais adequado trabalhar com a 1a pessoa
(singular e plural). Os alunos mais jovens têm muita dificuldade em afastar-se
do texto que estão produzindo, a fim de imprimir-lhe uma boa dose de objetividade.
Opinar é algo pessoal, subjetivo, é estabelecer um juízo de valor acerca de um
objeto a partir de parâmetros pessoais, particulares.
Já nas séries finais do segundo segmento do ensino fundamental e no
ensino médio, de uma forma geral, os alunos são mais amadurecidos e, por isso,
capazes de perceber o efeito diferenciado quando do uso da voz passiva, do
sujeito indeterminado, da impessoalidade ou mesmo da terceira pessoa em lugar
da primeira. O texto torna-se mais objetivo e direto, se for essa a intenção, e
seu autor deixa de tomar para si, individualmente, a responsabilidade pelo que
está sendo dito. Ele busca apoio na voz da coletividade ou no argumento de
autoridade (Perelman, 1996) para reforçar seus próprios argumentos, sendo mais
fácil, assim, conseguir a adesão de seus interlocutores, convencendo-os acerca
da ideia que defende.
Talvez por isso seja tão comum o emprego da expressão texto de
opinião nos primeiros anos de trabalho com a argumentação na escola. Mais
tarde, entretanto, a nomenclatura texto argumentativo assume seu lugar.
Texto de Opinião – Uma Análise
A análise de textos de opinião, desde cedo, na escola, é muito
importante para que os alunos possam se familiarizar com seu objetivo
comunicativo e com sua estrutura. O professor exerce papel fundamental nesse
empreendimento, guiando a leitura do aluno na análise do conteúdo e das
estratégias de estruturação desse gênero.
O texto que ora apresentamos servirá como um exemplo daquilo que se pode
abordar, num trabalho de leitura, visando capacitar o aluno para reconhecer, no
texto de opinião, tanto a intenção comunicativa de seu autor – expressa
no ponto de vista que defende e em sua fundamentação –, quanto os aspectos linguísticos
essenciais para sua eficácia comunicativa.
O
Brasil é um país privilegiado no que diz respeito à quantidade e à qualidade
de suas águas, mas, se não fizermos boas campanhas educativas para a
população, logo perderemos esse privilégio.
Em
nossa opinião, já manifestada em artigos anteriores, às campanhas são
necessárias porque muitas pessoas desperdiçam água lavando calçadas
diariamente, não consertando torneiras que vazam e passando muito tempo nos
chuveiros.
Nem
todos são favoráveis às campanhas educativas. Para alguns economistas, a
solução é aumentar o preço da água.
Pensamos
que isso seria um verdadeiro absurdo, pois o preço da água brasileira é um
dos mais altos do mundo! Por outro lado, mesmo pagando caro, os brasileiros
continuam desperdiçando água.
Todos
sabemos que seria impossível viver sem água. Então, a solução melhor é fazer
campanhas educativas que ajudem a conscientizar a população, mostrando a
todos que a água é um recurso que pode se esgotar com o mau uso.
(Adaptado
de Antônio Ermínio de Moraes:
Depois da água, por que não o ar? Folha de São Paulo: Opinião – 24/03/02) |
Posição do autor em relação ao tema
O autor posiciona-se a favor das campanhas educativas, como se pode
perceber no segundo parágrafo, quando escreve: Em nossa opinião, já
manifestada em artigos anteriores, às campanhas são necessárias...
Argumentos
Ele justifica sua posição argumentando que é necessário conscientizar a
população, ou seja, fazer as campanhas porque há desperdício de água: muitas
pessoas desperdiçam água lavando calçadas diariamente, não consertando torneiras
que vazam e passando muito tempo nos chuveiros.
Antecipação e contestação de outros argumentos
No texto, o autor antecipa o argumento de alguns economistas, que dizem
estar à solução do problema no aumento do preço da água. Ele ainda contesta
esse argumento, dizendo que o preço da água brasileira é um dos mais altos
do mundo! e apresentando o fato de que, mesmo pagando caro, os
brasileiros continuam desperdiçando água.
Fechamento do texto
No último parágrafo do texto, o autor reafirma seu posicionamento
inicial a favor das campanhas educativas, retomando o que dissera no primeiro
parágrafo: a solução melhor é fazer campanhas educativas que ajudem a
conscientizar a população. Ele conclui seu raciocínio com argumentos
irrefutáveis, buscando reforçar sua tese de que as campanhas são necessárias: Todos
sabemos que seria impossível viver sem água e a água é um recurso que
pode se esgotar com o mau uso.
Articulação do texto
A expressão Em nossa opinião, que introduz o segundo parágrafo
estabelecendo um vínculo com o primeiro, anuncia com clareza a posição do autor
diante do que se diz em seguida.
As partículas mas, porque, pois, então – primeiro, segundo,
quarto e quinto parágrafos respectivamente – articulam os argumentos que
introduzem ao que se afirma anteriormente, estabelecendo uma relação lógica
entre eles:
MAS (relação de oposição) – O Brasil é um país privilegiado no que diz respeito à quantidade e à qualidade de suas águas,
MAS (...) logo perderemos esse privilégio
PORQUE (relação de causa) – ...as campanhas são necessárias
PORQUE muitas pessoas desperdiçam água...
POIS (relação de explicação) – Pensamos que isso seria um verdadeiro absurdo,
POIS o preço da água brasileira é um dos mais altos do mundo!
ENTÃO (relação de conclusão) – Todos sabemos que seria impossível viver sem água.
ENTÃO, a solução melhor é fazer campanhas educativas...
MAS (relação de oposição) – O Brasil é um país privilegiado no que diz respeito à quantidade e à qualidade de suas águas,
MAS (...) logo perderemos esse privilégio
PORQUE (relação de causa) – ...as campanhas são necessárias
PORQUE muitas pessoas desperdiçam água...
POIS (relação de explicação) – Pensamos que isso seria um verdadeiro absurdo,
POIS o preço da água brasileira é um dos mais altos do mundo!
ENTÃO (relação de conclusão) – Todos sabemos que seria impossível viver sem água.
ENTÃO, a solução melhor é fazer campanhas educativas...
Ao mesmo tempo em que cumpre a função de articulador entre dois
períodos, o ENTÃO apresenta a conclusão do texto. Esse vocábulo anuncia o
fechamento do raciocínio do autor através da retomada de sua tese inicial,
reafirmando-a: ...se não fizermos boas campanhas educativas para a população
(primeiro parágrafo); ENTÃO, a solução melhor é fazer campanhas
educativas que ajudem a conscientizar a população... (último parágrafo).
Há, ainda, nesse texto, uma expressão que atua na organização dos
argumentos, ligando partes maiores do texto. O emprego de por outro lado,
no quarto parágrafo, faz-nos perceber a relação entre a antecipação do
argumento dos economistas (a solução é aumentar o preço da água.), no
terceiro parágrafo, e a contestação desse possível argumento pelo autor do
texto no quarto parágrafo (Por outro lado, mesmo pagando caro, os
brasileiros continuam desperdiçando água.). Entende-se que foi omitida a
primeira expressão (por um lado) que se poderia articular a por outro
lado. Sua presença não é obrigatória, uma vez que pode ser facilmente
recuperada na leitura (elipse).
Enunciação
O texto em questão foi escrito para a seção Opinião da Folha de
São Paulo. Por objetivar atingir um público muito heterogêneo – pertencente a
classes sociais diferentes e com níveis de escolaridade também diversos – e
sensibilizá-lo na tentativa de provocar uma mudança de comportamento, o autor
optou por escrever seu texto na primeira pessoa do plural.
Essa opção, além de tornar público o posicionamento pessoal do autor,
ainda constrói, na mente dos leitores, a ideia de que há muitas outras pessoas
que compartilham dessa mesma opinião (Em nossa opinião..., Pensamos
que..., Todos sabemos...) – o que aumenta a força de persuasão de
seus argumentos.
Atividades Possíveis para Auxiliar
na Construção do Texto de Opinião Escrito
na Construção do Texto de Opinião Escrito
Muito se pode fazer para levar o aluno a apropriar-se dos recursos para
a escrita de textos de opinião. Surpreendemo-nos quando, após o desenvolvimento
de um trabalho sistemático de análise e produção, vemos o amadurecimento não só
do texto de nossos alunos, mas deles mesmos, que então são capazes de ler
criticamente – percebendo, com mais facilidade, os sentidos dos textos – e
escrever com mais desenvoltura – colocando no papel, com clareza, sua intenção
comunicativa. Isso fica mais claro para nós e, principalmente, para eles quando
podemos comparar suas escritas iniciais de textos de opinião com o que estão
escrevendo ao final do processo.
Os debates orais são muito importantes não só com os pequenos,
que ainda têm muita dificuldade com a escrita, mas em todos os níveis, já que a
troca de informações sobre o tema torna mais fácil a decisão sobre o que se vai
dizer.
Pode-se propor aos alunos uma questão polêmica, com a qual uns
concordarão e outros não, e solicitar deles argumentos que fundamentem sua
posição. Depois, podem-se anotar os argumentos contra e a favor no
quadro-de-giz, aleatoriamente, solicitando que eles os identifiquem. Estaremos
trabalhando com a construção e, ao mesmo tempo, com o reconhecimento de
argumentos.
Para a análise inicial de textos de opinião escritos, podem-se
selecionar trechos que mostrem claramente os elementos que se quer enfocar. É
preciso guiar os alunos no reconhecimento da questão polêmica, da posição do
autor do texto e de seus argumentos. O professor pode, também, a partir de
determinada tese, formular ele próprio argumentos contra ou a favor, para que o
aluno reconheça quem os teria elaborado. Com base no texto aqui analisado,
sobre a necessidade de economizar água, poderia o professor listar, por
exemplo, estes argumentos:
· Quanto mais cara a água, mais a população
economizará.
· É preciso alertar a população para o risco de
não haver mais água no futuro.
· Não se pode deixar de lavar calçadas e
automóveis, é um caso de higiene.
O aluno, com base nas informações que tem a partir da leitura do texto,
reconhece que o primeiro argumento possivelmente foi elaborado pelos
economistas; o segundo, pelo autor do texto; e o terceiro, por um representante
da população, que não está ainda esclarecido sobre a questão de a água ser um
bem esgotável na natureza e sobre as alternativas para se manter o ambiente
limpo, embora evitando o desperdício. É o reconhecimento de diferentes vozes
dentro do texto.
Em relação à escrita propriamente dita, pode-se propor aos alunos
que eles levantem argumentos contra e a favor de uma tese construída pelo
professor (construção de argumentos). Pode-se, também, solicitar que os alunos
analisem o contexto do interlocutor, imaginando que argumentos ele poderia usar
para defender seu ponto de vista. Utilizando esse raciocínio, é possível
antecipar possíveis argumentos, para contestá-los (antecipação de argumentos do
interlocutor).
Atividades de articulação entre a posição do autor e seu argumento,
entre o argumento e a conclusão do argumento auxiliam o aluno a refletir sobre
os diferentes elementos de coesão referencial e sequencial que tem a sua disposição
e sobre como tirar o melhor proveito deles em favor da eficácia comunicativa.
Revisão do Texto pelos Alunos
Como uma importante etapa da construção do texto escrito, a revisão
precisa fazer parte da rotina da sala de aula nas aulas de Língua Portuguesa. É
durante esse momento do trabalho que o aluno avalia a pertinência das escolhas
que fez tanto no âmbito dos argumentos (textual-discursivo) quanto no dos
recursos linguísticos (gramatical).
No início, a revisão terá de ser encaminhada pelo professor, que
apontará – e até mesmo marcará –, no texto do aluno, o que precisa ser
melhorado. Mais tarde, o próprio aluno já será capaz de dar conta de muitas
questões, principalmente se tiver a oportunidade de se distanciar de seu texto,
fazendo essa revisão alguns dias depois de sua primeira etapa de escrita.
No ensino fundamental, para que o aluno se sinta mais seguro nessa etapa
da escrita e para que não deixe de observar nenhum aspecto relevante durante a
revisão do texto, o professor pode, com base no que se construiu como “roteiro”
para a escrita do texto de opinião, guiar a autocorreção do aluno
observando os seguintes itens, que devem ser disponibilizados na sala de aula:
Aspectos textuais
- Tomou posição em relação à situação apresentada?
- Introduziu sua opinião com expressões como: “na minha opinião”, “penso que” ?
- Considerou o ponto de vista do interlocutor para construir seus argumentos?
- Usou expressões organizadoras do texto, como: “primeiramente... em segundo lugar...”?
- Utilizou expressões que introduzem argumentos, como: “pois”, “porque” ?
- Usou expressões que introduzem a conclusão, como: “então”, “assim”, “portanto” ?
- Finalizou o texto reforçando sua posição?
Aspectos formais da escrita
- Verificou se há marcas de oralidade e repetições excessivas?
- A pontuação está bem colocada?
- Usou letra maiúscula nos nomes próprios, início de parágrafos e após as pontuações?
- Corrigiu os erros de ortografia?
- Escreveu com letra legível?
Conclusão
Priorizando-se, neste trabalho, o texto de opinião, suas condições de
produção e seus aspectos enunciativos, buscou-se apontar um caminho para a
transposição didática, demonstrando que é possível desenvolver um trabalho com
a produção do texto argumentativo, no Ensino Fundamental, desde as séries
iniciais, em que sejam considerados a situação comunicativa, os sujeitos nela
envolvidos e os papéis a desempenhar.
Objetiva-se, desse modo, apontar caminhos para que o professor possa
criar condições de aprendizagem em que o aluno desenvolva competências para a
prática social do discurso. Ele será capaz, então, de perceber que fatores
externos à língua precisam ser considerados para que se possa entender
plenamente o que por meio dela é dito e que, por si só, seria insuficiente.
Para viabilizar essa proposta, é importante que se considere o gênero
textual como o corpus para análise – observando seus aspectos
estruturais e linguísticos – e como modelo para a escrita – colocando em uso as
descobertas feitas quando da leitura. O gênero não é somente uma ferramenta
para a comunicação, mas deve constituir, também, um objeto de aprendizagem para
o aluno, se lhe forem dadas as condições adequadas.
Referências bibliográficas
CHARAUDEAU, Patrick. Grammaire du sens et de l’expression. Paris:
Hachette, 1992.
MARCUSCHI, Luiz Antônio. “Gêneros textuais: definição e funcionalidade”.
In: DIONISIO, Angela e outros (org). Gêneros textuais e
ensino. Rio de Janeiro: Lucerna, 2002, p.19-36.
PERELMAN, Chaïm. Tratado da argumentação. São Paulo: Martins
Fontes, 1996.